Brainrot: por que as crianças usam esse termo e como os pais podem lidar com ele

12 JUN 2026

Principais pontos deste artigo 

  • “Brainrot” foi escolhido como Palavra do Ano de 2024 pela Oxford University Press, refletindo um crescimento expressivo em seu uso. 

  • O termo possui múltiplos significados: descreve um tipo de conteúdo rápido e repetitivo, um padrão de comportamento online e uma gíria da internet.
     
  • Brainrot (fadiga digital causada pelo consumo excessivo de conteúdo superficial) não é um diagnóstico médico, mas os hábitos associados ao
    fenômeno (como o scroll infinito) estão relacionados a alterações de atenção, memória e humor. 

  • Crianças e adolescentes costumam utilizar o termo de forma descontraída, como parte da cultura digital e da socialização online. 

  • O conteúdo considerado brainrot geralmente é curto, envolvente e projetado para manter os usuários assistindo por meio de plataformas impulsionadas por algoritmos. 

  • A principal preocupação não está no conteúdo em si, mas na forma como ele é consumido — especialmente em comportamentos como o zombie scrolling ou o binge-watching. 

  • Os pais podem apoiar melhor seus filhos por meio de conversas abertas, limites claros e hábitos digitais saudáveis, em vez de proibições rígidas. 

Talvez você já tenha visto seu filho navegando por vídeos curtos, repetindo expressões que parecem não fazer muito sentido, como “ballerina cappuccina”, ou rindo de conteúdos que, à primeira vista, parecem caóticos ou completamente aleatórios. Você também pode ter ouvido a palavra brainrot, usada às vezes como brincadeira e, em outras ocasiões, quase como um alerta. O termo ganhou atenção mundial quando a Oxford University Press o escolheu como Palavra do Ano de 2024, destacando um aumento significativo em seu uso online (230% entre 2023 e 2024). 

Embora o nome pareça dramático, ele não descreve uma condição médica. Em vez disso, reflete uma experiência compartilhada da vida digital moderna, especialmente entre os usuários mais jovens. 

O que realmente significa “brainrot”? 

Embora o termo seja frequentemente associado a plataformas modernas como o TikTok, a expressão é muito mais antiga. Ela apareceu já em 1854, na obra Walden, de Henry David Thoreau, que a utilizou para criticar a preferência da sociedade por ideias simples em detrimento de pensamentos mais complexos: “Enquanto a Inglaterra se esforça para curar a podridão das batatas, ninguém se esforçará para curar a podridão do cérebro, que prevalece de forma muito mais ampla e fatal?” 

Na cultura online, o termo ressurgiu para descrever formas de entretenimento consideradas perda de tempo, como reality shows ou conteúdos simples da internet. Com o passar do tempo, tornou-se uma gíria amplamente utilizada, especialmente em comunidades focadas em memes e vídeos curtos. 

Hoje, em seu sentido mais formal, brainrot refere-se a uma suposta diminuição da capacidade cognitiva causada pelo consumo excessivo de conteúdos triviais ou pouco estimulantes. Essa definição reflete preocupações mais amplas sobre como as mídias digitais podem afetar a atenção e o raciocínio, retomando a visão original de Thoreau sobre o conceito. 

Ao mesmo tempo, a palavra é amplamente usada como gíria fora do ambiente digital. Crianças e adolescentes costumam utilizá-la de forma leve e consciente para descrever conteúdos repetitivos, absurdos ou “tão bobos que chegam a ser divertidos”. Dizer que algo é brainrot não significa necessariamente que seja prejudicial. Muitas vezes, significa apenas que o conteúdo é fácil de consumir e não exige muito esforço para ser compreendido. 

Há ainda um significado particularmente relevante para os pais. O termo também pode descrever um padrão de comportamento: assistir grandes quantidades de conteúdo curto e acelerado, frequentemente sem intenção clara, e ter dificuldade para parar. Nesse aspecto, ele se aproxima da forma como normalmente entendemos o conceito de dependência. 

Como o brainrot funciona e afeta as crianças 

Uma das razões pelas quais esse tipo de conteúdo é tão difícil de abandonar está na forma como ele é distribuído. Muitas plataformas utilizam um mecanismo conhecido na psicologia como reforço intermitente. Isso significa que conteúdos recompensadores aparecem de maneira imprevisível. Um vídeo pode ser desinteressante; o seguinte, extremamente envolvente. Como os usuários nunca sabem o que virá a seguir, continuam rolando a tela. 

Com o tempo, isso cria um padrão em que o cérebro se acostuma a recompensas rápidas, novidades constantes e esforço mínimo. Como consequência, atividades mais lentas, como leitura ou estudo, podem parecer menos interessantes. 

Diversas pesquisas associaram o consumo excessivo de conteúdos curtos aos seguintes efeitos: 

- Redução da capacidade de atenção;

- Fadiga mental;

- Menor retenção de memória;

- Dessensibilização emocional;

- Aumento do risco de ansiedade ou depressão. 

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que essas descobertas demonstram correlação, não causalidade direta. O professor Andrew Przybylski, da Universidade de Oxford, afirmou que: “Não há evidências de que brainrot seja realmente algo que exista” como fenômeno neurológico. Nem toda criança que assiste a vídeos curtos apresentará efeitos negativos. Ainda assim, vale a pena estabelecer limites saudáveis para o tempo de tela e manter conversas constantes sobre experiências digitais, emoções e possíveis preocupações. Em última análise, o objetivo é promover consciência, não medo. 

Como é o conteúdo considerado brainrot 

O pesquisador Alexander Serenko identifica cinco características comuns do chamado conteúdo brainrot: forte apelo emocional, duração muito curta, uso de elementos familiares, conexão flexível com referências culturais, compreensão imediata. Na prática, isso pode incluir: 

- Vídeos de reação em que a atenção se desloca do conteúdo original para uma reação exagerada de alguém.

- Compilações rápidas de memes que saltam de uma piada para outra sem uma narrativa definida.

- Séries virais como Skibidi Toilet, conhecidas pelo estilo acelerado, absurdo e altamente repetitivo.

- Memes “Only in Ohio”, usados para rotular algo estranho ou constrangedor.

- “Brainrot edits”, com cortes extremamente rápidos, sobreposição de imagens e sons distorcidos, criando uma experiência intensa e quase desorientadora. 

O que nem sempre é evidente é que esse tipo de conteúdo costuma ser produzido de forma estratégica. Muitos criadores o desenvolvem especificamente para obter bom desempenho em ambientes controlados por algoritmos, onde o tempo de visualização e o potencial de compartilhamento têm mais importância do que a profundidade do conteúdo. O avanço da Inteligência Artificial generativa ampliou ainda mais esse fenômeno, permitindo a produção rápida e em larga escala de conteúdos semelhantes, incluindo tendências como o chamado Italian brainrot. 

Italian brainrot em resumo 

O Italian brainrot é uma tendência viral baseada em personagens surreais gerados por Inteligência Artificial, que combinam animais, objetos ou pessoas e recebem nomes pseudoitalianos acompanhados por áudios repetitivos e ritmados. Exemplos incluem expressões como “Tralalero Tralala”. 

Sua popularidade vem justamente do caráter absurdo, repetitivo e facilmente reconhecível, o que facilita o compartilhamento e a interação entre crianças. Grande parte desse conteúdo é inofensiva e criada exclusivamente para entretenimento. No entanto, algumas versões originais podem conter palavrões ou referências inadequadas escondidas em áudios em idiomas estrangeiros, que nem sempre são facilmente identificados. 

Glossário Brainrot: termos que você deve conhecer 

Doomscrolling

Consumo compulsivo de notícias negativas, geralmente tarde da noite. Mesmo quando isso faz você se sentir pior, continua rolando a tela. Está associado à ansiedade e a uma percepção distorcida de que o mundo é mais perigoso do que realmente é. 

Rolagem automática  

Rolagem automática e sem propósito. Você não está procurando nada específico, apenas continua deslizando a tela. É um dos hábitos digitais mais comuns e menos percebidos. 

Maratona de conteúdo 

Assistir a vários episódios ou vídeos consecutivamente em uma única sessão. Muitas vezes substitui o sono, a atividade física e a interação social presencial. 

NPC 

Sigla de Non-Playable Character (personagem não jogável dos videogames). Na internet, descreve alguém sem personalidade própria, que age no piloto automático, repete os mesmos padrões e segue tendências sem pensar. O antigo "maria vai com as outras" em versão digital. 

Delulu 

Abreviação de delusional (iludido). Descreve quem cria expectativas ou fantasias irreais sobre uma situação, um crush, uma celebridade, um cenário improvável. Usado com humor e sem julgamento: "tô delulu mesmo, mas tudo bem." 

Farmar Aura 

Aura é a presença, energia ou "vibe" que uma pessoa transmite. Farmar aura é fazer coisas deliberadamente para parecer mais interessante, marcante ou estiloso, construir uma imagem. Perder aura é o oposto: fazer algo que "queima o filme". 

Flopar / Flopou 

Vem de flop (fiasco). Quando algo ou alguém não faz o sucesso esperado, não engaja, não bombou. "Postei achando que ia viralizar e flopou feio." 

Slay 

Quando alguém arrasa na aparência ou se sai muito bem em algo, simplesmente está em seu melhor momento. "Ela entrou arrasando, slay total." 

Skibidi 

Palavra sem significado específico usada para representar algo caótico ou absurdo. Originada da série viral Skibidi Toilet. 

Rizz 

Carisma ou charme natural, especialmente em situações românticas. 

Sigma 

Arquétipo da internet que representa um homem independente, dominante e indiferente às hierarquias sociais. Frequentemente utilizado de forma irônica. 

Goated / Goated with the sauce 

Derivado de GOAT (Greatest Of All Time). Refere-se a alguém extremamente habilidoso ou excelente. 

Cronicamente online 

Pessoa que passa tanto tempo online que sua visão de mundo é fortemente moldada pela cultura da internet. 

Goblin mode 

Estado de preguiça ou indulgência assumido sem culpa. Foi a Palavra do Ano de 2022 pela Oxford. 

Como prevenir e se recuperar do brainrot 

Segundo Earl Miller, neurocientista cognitivo do MIT: “Brainrot não está literalmente apodrecendo nossos cérebros. O problema é que ele cria constantemente um ambiente para o qual nossos cérebros não estão preparados. Somos criaturas focadas e, quando toda essa informação chega ao mesmo tempo, queremos consumir tudo, tornando difícil desligar esse desejo.” 

Gary Small, médico psiquiatra e autor de The Memory Bible, complementa: “Brainrot não é um diagnóstico médico real. O termo se refere ao declínio mental ou cognitivo que parece ocorrer quando consumimos conteúdo online excessivamente trivial ou pouco desafiador.” 

A boa notícia é que o cérebro possui neuroplasticidade. Isso significa que os mesmos hábitos que moldam a atenção também podem ser remodelados. Ninguém precisa abandonar completamente os aplicativos ou se desconectar da internet. O objetivo é ajustar hábitos de forma gradual, e não exercer controle excessivo. 

Sinais de alerta 

Você pode perceber: 

- Dificuldade crescente de concentração;
- Irritação ao ficar sem acesso aos dispositivos;
- Perda de interesse por atividades offline;
- Piora do sono;
- Redução das interações presenciais;
- Queda gradual no desempenho escolar. 

Nenhum desses sinais isoladamente indica um problema sério. Porém, quando vários deles aparecem simultaneamente e persistem ao longo do tempo, vale a pena intervir. 

Recomendações 
1. Defina limites de tempo para aplicativos específicos 

Utilize ferramentas como Tempo de Uso (iOS) ou Bem-estar Digital (Android) para estabelecer limites razoáveis. 

2. Crie horários livres de tecnologia 

Comece pela hora anterior ao sono. 

3. Incentive o consumo consciente 

Estimule pausas e reflexões durante a navegação. 

4. Reintroduza conteúdos de formato longo 

Livros, filmes e conteúdos mais extensos ajudam a reconstruir a capacidade de foco e paciência. 

5. Monte um “menu de dopamina” 

Crie uma lista de atividades offline prazerosas: 

- Caminhadas;
- Culinária;
- Música;
- Esportes;
- Hobbies. 

6. Experimente uma redefinição de duas semanas 

Pesquisas mostram que duas semanas com menos redes sociais podem reduzir o estresse e melhorar o foco. 

7. Faça uma curadoria rigorosa do feed 

O algoritmo entrega mais do que recebe engajamento. 

8. Use ferramentas de controle parental sem transformar isso em conflito 

Explique claramente os benefícios e os objetivos das ferramentas utilizadas. 

9. Crie zonas livres de telas 

Por exemplo: 
- Sem celulares durante as refeições;
- Sem dispositivos nos quartos durante a noite. 

A eficácia aumenta quando as regras valem para todos os membros da família. 

10. Seja o exemplo 

As crianças observam os hábitos digitais dos adultos muito mais do que os pais imaginam. 

11. Converse com seus filhos, não apenas fale para eles 

Peça que mostrem os conteúdos que gostam. Demonstre interesse genuíno antes de apontar preocupações. 

12. Baseie-se em orientações confiáveis 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) disponibiliza recomendações atualizadas sobre tempo de tela para diferentes faixas etárias. 

Conclusão 

Brainrot pode ser a palavra da moda da internet atualmente, mas as preocupações por trás dela não são novas: o consumo excessivo de conteúdos passivos e pouco desafiadores pode substituir o sono, a concentração, a criatividade e as conexões presenciais. 

Por outro lado, nem todo meme, tendência ou vídeo curto é prejudicial. Para muitas crianças, eles fazem parte da forma como socializam, brincam e participam da cultura digital. O mais importante não é se seu filho consome ocasionalmente conteúdos classificados como brainrot, mas se seus hábitos digitais são equilibrados e intencionais. 

Quando o uso se torna automático, o humor piora, o sono sofre ou os interesses offline desaparecem, é hora de oferecer apoio. Curiosidade, limites saudáveis, regras compartilhadas e conversas honestas costumam ser muito mais eficazes do que proibições. 

A internet continuará mudando e novas tendências continuarão surgindo. Mas a missão permanece a mesma: ajudar crianças e adolescentes a desenvolver autoconsciência, moderação e a capacidade de utilizar a tecnologia de forma que promova, e não prejudique, seu bem-estar. 

 

Perguntas frequentes 
Brainrot é uma condição médica real? 

Não. Brainrot não é um diagnóstico médico reconhecido. É um termo cultural e informal. No entanto, os comportamentos associados a ele, como o scroll excessivo e a redução da atenção, estão relacionados a efeitos cognitivos e emocionais mensuráveis em pesquisas científicas. 

O que significa brainrot como gíria? 

Pode se referir tanto a conteúdos repetitivos e superficiais quanto a uma obsessão intensa e geralmente bem-humorada por determinado tema. 

O que é Italian brainrot? 

É uma tendência viral baseada em personagens surreais gerados por IA, geralmente combinações absurdas de animais e objetos, acompanhadas por nomes pseudoitalianos e narrações sintéticas. 

Quais são exemplos de brainrot?

- Vídeos de reação;
- Compilações de memes;
- Skibidi Toilet;
- Personagens de Italian brainrot;
- Memes “Only in Ohio”;
- Edições aceleradas de TikTok;
- Doomscrolling;
- Rolagem automática 

É possível se recuperar do brainrot? 

Sim. Como o cérebro é neuroplástico, hábitos de atenção podem ser modificados. Reduzir o uso das redes sociais, estabelecer limites e fortalecer atividades offline contribuem para essa recuperação. 

O brainrot afeta mais crianças do que adultos? 

Em muitos aspectos, sim. Crianças e adolescentes são mais vulneráveis porque seus cérebros ainda estão em desenvolvimento. O córtex pré-frontal, responsável pelo controle de impulsos e pela tomada de decisões, amadurece apenas no início da vida adulta, tornando os jovens mais suscetíveis aos padrões compulsivos presentes em muitas plataformas digitais. 

Fonte: SaferKidsOnline.com

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