Por que muitas crianças estão viciadas em compartilhar tudo na internet?

22 MAI 2024

A era digital de hoje apresenta um fenômeno único com o qual tanto crianças quanto responsáveis se deparam: o oversharing. Oversharing refere-se ao compartilhamento excessivo do cotidiano e da vida, podendo incluir informações sensíveis, mas não se limitando a esse tipo de conteúdo. O excesso pode ser definido pela frequência ou profundidade e abrangência do tipo de conteúdo compartilhado, de acordo com cada contexto e situação. Um bom indicador pode ser o arrependimento por parte do adulto ou da criança no fim das contas, com a chance de consequências negativas como resultado.

Conversamos com Jarmila Tomková, uma psicóloga infantil cujo foco é justamente a psicologia no ambiente digital, para debater esse fenômeno, suas razões e formas de lidar com ele – tanto da parte dos responsáveis quanto da parte das crianças.

Caixa de texto informativa: Oversharing pode ser definido como o compartilhamento excessivo de informações pessoais, quer sejam detalhes sensíveis ou simplesmente uma alta frequência ou detalhes inadequados do conteúdo compartilhado. No contexto do mundo virtual, esse excesso de compartilhamento acontece de forma privada e pública.

Um dos fatores principais sobre esse comportamento on-line é que, com frequência, as crianças não entendem que estão compartilhando em excesso. “É comum não perceberem que um determinado tipo de informação pode ser considerado inadequado para ser compartilhado publicamente, ou com alguma outra pessoa”, relata Jarmila. “As crianças sentem que precisam compartilhar mas não levam em consideração os fatores ou razão pela qual estão compartilhando”.

As crianças podem sentir vontade de compartilhar por diferentes motivos

Muitas vezes, deixam-se levar e compartilham em excesso nas redes devido a uma série de razões. Algumas delas são o baixo controle de sua impulsividade, a necessidade de pertencerem a algo e a vontade de serem vistas como populares ou ousadas. Às vezes, as crianças também recaem nesse tipo de comportamento para estabelecer relações íntimas. Elas querem se sentir especiais e buscam se encontrar. Compartilhar informações on-line, ou seja, reproduzir o que outras crianças fazem, ou até mesmo as celebridades, pode dar-lhes a sensação de que são parte daquilo. Isso pode ser crucial, ainda mais para uma criança que está tentando se entender. O entendimento que possuem sobre o que seria aceitável compartilhar e o que não seria acaba sendo moldado pela cultura na qual estão inseridas.

A fase de desenvolvimento e o papel dos traços de personalidade

Oversharing pode acontecer no privado também. Isso pode ocorrer com crianças menores de 12 anos quando, por exemplo, conhecem alguém em um jogo virtual e sentem que ali há uma conexão. Podem inclusive compartilhar informações pessoais sem perceberem que isso as coloca em risco, e que a pessoa com quem estão compartilhando esses dados pode, na verdade, ter más intenções”, explica Jarmila, quando questionada a respeito de crianças mais jovens e seus hábitos de oversharing.
Crianças ainda menores, com idade entre 7 e 10 anos, pensam de forma concreta e confiam nas outras pessoas naturalmente (o que é muito normal e saudável nessa fase), tornando-as suscetíveis ao oversharing e, infezlimente, a consequências negativas também. Crianças um pouco maiores, motivadas pelo desejo de popularidade e expressão emocional, também recaem nesse comportamento. Em ambos os casos, oversharing pode ser gerado tanto por estresse emocional quanto por uma forma de autopercepção.
Vale lembrar que o compartilhamento excessivo das crianças maiores não ocorre apenas devido a estresses emocionais. Às vezes, deve-se à necessidade que sentem em serem diferentes e encontrarem seu lugar no mundo”, complementa Jarmila.

Traços de personalidade também podem ser um fator relevante. Contudo, nunca são a única motivação por trás desse comportamento. “Com base na minha experiência, as crianças mais suscetíveis à necessidade de compartilhar em excesso costumam ser extrovertidas e terem vontade de compartilharem com o mundo quem elas são. Esses jovens precisam aprender uma maneira de se expressarem de forma segura, sem recorrer ao ambiente digital como única opção”, observa Jarmila. Ainda, a psicóloga ressalta que algumas crianças podem ser impulsivas demais, sem as condições necessárias para regular suas próprias emoções, explicando por que recorrem ao oversharing como sendo a única opção. “Ao que tudo indica, inclusive os adultos têm um baixo controle sobre mudanças naturais em seus traços de personalidade ou sobre as condições emocionais que sentiram durante a adolescência. A tendência de compartilhar uma certa quantidade de informações, a frequência na qual isso é feito e o tipo de conteúdo são apenas um conjunto dos dois fatores principais em se tratando do compartilhamento excessivo danoso. O segundo fator é ter conhecimento e capacidade de controle a amplitude de sua privacidade no que concerne às informações compartilhadas. Cabe aos responsáveis e escolas fornecerem esses conhecimentos e habilidades às crianças”, reitera Jarmila.

As redes sociais também têm seu papel no oversharing

Essa prática pode levar a sentimentos de vergonha, consequências perigosas – ainda que não intencionais – e cyberbullying. As tendências intrínsecas às redes sociais também podem alimentar uma cultura de oversharing, agravando ainda mais a situação. As redes sociais são uma parte expressiva da vida das crianças, influenciando o que e com qual frequência compartilham informações. Tendências como “senta que lá vem história” ou “fatos sobre mim” tomaram conta do ambiente digital, em que se incentiva que as pessoas falem de aspectos da vida pessoal, bem como seus traumas e dificuldades. “As crianças acompanham o que está sendo compartilhado e querem participar do que está na moda. Isso também vale para celebridades, como o exemplo de influenciadores que publicam um certo tipo de conteúdo e levam as crianças a acreditarem que deveriam fazer o mesmo para se sentirem parte daquilo”, complementa Jarmila.

O que pode ser feito?

Há diferentes estratégias que os responsáveis podem adotar para ajudar as crianças. “Em primeiro lugar, é essencial fornecer as condições para o desenvolvimento saudável das crianças. Devemos ajudá-las a terem noção de seu próprio valor e importância como seres únicos, educando-as para que tenham uma boa autoestima e as auxiliando a tomar consciência de suas emoções. Isso é algo que os adultos devem sempre fazer, mesmo quando não enfrentam situações de oversharing. Outro ponto muito importante é mostrar às crianças quais tipos de situações são arriscadas e por que podem ser prejudiciais ”, ressalta Jarmila quando questionada sobre medidas práticas para os adultos nessa equação.

Os responsáveis devem garantir que a criança se aceite cada vez mais, conheça sua identidade e tenha atitudes saudáveis com relação a si mesmas. Ainda, é muito importante que haja oportunidades suficientes no mundo off-line para compartilharem suas emoções de forma saudável. “As crianças precisam de espaço e reforço social o bastante para que se abram e sintam uma conexão com pessoas próximas. Os adultos devem instruí-las a fazer amigos e devem ajudá-las a desenvolver suas habilidades sociais; as crianças precisam de incentivo para participar de diferentes comunidades, praticar esportes e ter atividades de lazer onde possam socializar”. É o que diz Jarmila sobre o papel dos adultos.

Construção de hábitos saudáveis

A primeira infância é um bom momento para começar a desenvolver hábitos e rotinas saudáveis. Jarmila sugere, por exemplo, fazer um ritual com a criança: uma ideia é conversar sobre as dificuldades e acontecimentos ao longo dos dias. Mais tarde, os adultos podem oferecer maneiras diversas de compartilhar seus sentimentos mais íntimos em um diário, em desenhos ou por meio de outras estratégias que ajudem a se conectarem às suas próprias emoções. Precisam saber que não há problema em entenderem suas emoções e, para isso, é necessário que conheçam estratégias sobre como ficar atentas e não reagir de forma exagerada. É importante que não se sintam sozinhas com suas emoções. As atividades podem ser feitas em conjunto, como durante o jantar, onde todos os membros da família compartilhando as emoções boas e as ruins daquele dia”.

As crianças sentem que precisam de permissão para compartilhar e falar sobre suas emoções. “O paradoxo é que, ao compartilhar mais em abientes seguros, podemos prevenir o oversharing”,  esclarece Jarmila.

Como reagir ao oversharing

Ao descobrir que seu filho está compartilhando em excesso, lembre-se de não reagir de forma exagerada ou entrar em pânico. “Respire fundo e mantenha em mente que você não pode comprometer sua relação com a criança reagindo precipitadamente ou com julgamento. Em vez disso, reconheça com calma e naturalidade que viu o conteúdo impróprio compartilhado. Não deixe o problema passar despercebido, mas escolha suas palavras com cuidado para não perder a confiança da criança. Nós somos o sistema de apoio de referência que possuem, e as crianças precisam saber que você tem noção das implicações do compartilhamento excessivo e suas possíveis consequências”, segundo Jarmila.

Não fazer julgamentos é mais importante do que demonstrar apoio excessivo nesses casos. Você pode usar exemplos da sua própria vida, onde o compartilhamento excessivo deu errado (por exemplo, oversharing dentro de uma equipe) ou exemplos de celebridades que se arrependeram por compartilhar demais. Demonstre uma curiosidade genuína sobre a vida e as experiências das crianças, em vez de tirar conclusões precipitadas ou fazer suposições. Jarmila então diz: “Evite perguntas de confronto como “Por que você compartilhou isso?” Escolha estabelecer um diálogo aberto e faça perguntas mais investigativas, como “Quais eram as suas expectativas quando compartilhou isso?" ou "Que resultado você esperava obter?" Acima de tudo, mantenha o foco no bem-estar da criança, e não nos seus próprios sentimentos ou reações. Trata-se das crianças, não de você.

É muito difícil traçar uma linha entre a liberdade de expressão das crianças e o compartilhamento excessivo. Vale refletir sobre quem terá acesso a esse conteúdo e o que poderá ser pensado ou feito com base nas informações compartilhadas. No entanto, por meio da compreensão, da comunicação aberta e da promoção de um ambiente de apoio, podemos orientar nossos filhos para que tenham hábitos de compartilhamento que sejam saudáveis e responsáveis. E o mais importante, precisamos sempre orientá-los e criar um ambiente on-line mais seguro.

Autora: Alžbeta Kovaľová

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