A evolução do aliciamento digital: como cibercriminosos se aproximam dos jovens

06 AGO 2026

O aliciamento digital está mudando constantemente. Entenda por que isso deve estar no radar dos pais. 

Uma criança conversando com os amigos enquanto joga Roblox, participando de um servidor no Discord sobre o jogo favorito ou trocando mensagens no Snapchat provavelmente não chama a atenção da maioria dos pais. E, na maior parte das vezes, não há nada de errado nisso. Mas essas interações do dia a dia também são o ponto de partida do aliciamento, que raramente começa com ameaças ou mensagens explícitas, e sim com conversas comuns que, aos poucos, constroem confiança. 

Entender como o aliciamento digital tem mudado nos últimos anos ajuda os pais a reconhecer riscos reais, sem enxergar perigo em toda amizade que a criança faz na internet. 

Principais pontos deste artigo 

- O aliciamento digital não é uma ameaça nova, mas as táticas usadas por pessoas mal-intencionadas para se aproximar das crianças estão em constante transformação. 
- Hoje, o aliciamento costuma começar em espaços digitais do cotidiano, em jogos multiplayer, aplicativos de mensagens e comunidades online e não apenas nas redes sociais. 
- Novas tecnologias, incluindo a inteligência artificial (IA), facilitam a criação de identidades falsas convincentes e aceleram a construção de confiança com a criança. 
- Apesar de toda essa evolução tecnológica, a psicologia por trás do aliciamento continua a mesma: pessoas mal-intencionadas exploram a necessidade que as crianças têm de amizade, atenção e pertencimento. 
Para os pais, manter o diálogo aberto, incentivar hábitos digitais saudáveis e permanecer presentes na vida online dos filhos seguem sendo as formas mais eficazes de reduzir o risco. 

O grooming online está mudando. Mas como? 

Grooming é o processo pelo qual um adulto constrói deliberadamente uma relação de confiança com uma criança antes de explorá-la ou abusar dela. Isso pode acontecer tanto no mundo offline quanto online, mas a internet transformou por completo a forma como pessoas mal-intencionadas conseguem chegar até as crianças e o quanto pode ser difícil para os adultos perceberem o que está acontecendo. 

Diferente do grooming offline, limitado pela distância e pelas oportunidades de contato presencial, o grooming online pode começar em qualquer lugar onde a criança interaja com outras pessoas: em jogos multiplayer, redes sociais, aplicativos de mensagens, chats de lives ou comunidades online organizadas em torno de interesses em comum. Uma pessoa mal-intencionada pode entrar em contato com dezenas ou até centenas de crianças sem sair de casa. 

Como costuma ser o aliciamento digital, na prática? Raramente começa com mensagens explícitas. Em vez disso, pessoas mal-intencionadas costumam: 

- D
emonstrar um interesse fora do comum pelos hobbies, problemas ou rotina da criança
 
- Oferecer apoio emocional ou elogios para conquistar a confiança rapidamente 
- Incentivar conversas privadas, migrando de chats públicos para mensagens diretas ou aplicativos criptografados 
- Pedir para a criança manter a relação em segredo, escondida dos pais ou amigos 
- Introduzir aos poucos temas mais pessoais ou sexuais, geralmente só depois que a confiança já foi conquistada 
- Usar culpa, pressão ou manipulação emocional quando a criança tenta encerrar a conversa 

As crianças crescem em um mundo cada vez mais conectado 

Hoje, muitas crianças recebem seu primeiro dispositivo conectado à internet mais cedo do que as gerações anteriores. Elas jogam em plataformas multiplayer, participam de grupos de chat, assistem a lives e se comunicam com os amigos em vários aplicativos diferentes, todos os dias. Estar conectado deixou de ser uma exceção e passou a fazer parte da rotina normal da infância. 

Isso não é necessariamente ruim. Os espaços digitais permitem que crianças aprendam, criem, colaborem e mantenham amizades. Mas quanto mais lugares a criança frequenta online, mais oportunidades surgem para que alguém com más intenções tente se aproximar dela. 

Você sabia?  

Durante a pandemia, muitas crianças passaram a depender da internet não só para se divertir, mas também para estudar e se comunicar. Infelizmente, isso também impactou o aliciamento digital. Segundo a Internet Watch Foundation (IWF), o volume de material de abuso sexual infantil envolvendo crianças em idade de ensino fundamental cresceu mais de 1.000% durante a pandemia de COVID-19. A organização alerta que boa parte desses casos começaram justamente com aliciamento digital, quando a pessoa primeiro conquista a confiança da criança para depois convencê-la ou coagi-la a produzir imagens ou vídeos de cunho sexual. A pandemia acelerou a vida digital das crianças, e os riscos associados a ela continuam evoluindo à medida que jovens passam cada vez mais tempo em jogos, aplicativos de mensagens e comunidades online. 

A forma de se comunicar mudou 

As conversas online de hoje são bem diferentes das que existiam há poucos anos. Em vez de trocar apenas mensagens de texto, as crianças se comunicam por mensagens que desaparecem, chamadas de voz, videochamadas, grupos privados e chats dentro de plataformas de jogos, onde a comunicação acontece naturalmente durante a partida. 

Esses recursos tornam a interação online mais envolvente, mas também dificultam a percepção de conversas problemáticas por parte dos adultos. Isso não significa que os pais devam monitorar cada mensagem trocada pelo filho. Significa, na verdade, que manter o diálogo constante sobre as relações que a criança constrói online é mais importante do que depender apenas de soluções técnicas. 

A IA cria novas oportunidades mas também novos riscos 

A inteligência artificial (IA) está mudando diversos aspectos da vida digital, incluindo a forma como as pessoas se comunicam online. A tecnologia em si raramente é o problema, ela traz benefícios enormes para a educação, a criatividade e o dia a dia. Mas, como qualquer tecnologia, também pode ser usada de forma indevida. A IA pode facilitar a criação de perfis falsos convincentes, gerar fotos de perfil realistas, traduzir conversas para outros idiomas ou produzir mensagens que soam mais pessoais e confiáveis. 

Com essas ferramentas cada vez mais acessíveis, distinguir um perfil verdadeiro de um falso pode se tornar uma tarefa difícil, não só para as crianças, mas também para os adultos. Além disso, criminosos vêm usando IA para criar conteúdo ilegal e até chatbots com aparência infantil, o que torna a detecção por sistemas tradicionais de segurança pública ainda mais complexa, um problema extremamente sério. 

Ainda que a IA seja apenas uma peça do quebra-cabeça, ela mostra como os riscos online continuam evoluindo junto com a tecnologia. A tecnologia muda, mas a manipulação continua a mesma. 

Mesmo com a evolução constante das plataformas digitais, a psicologia por trás do grooming online permanece praticamente inalterada. Crianças raramente são manipuladas por serem descuidadas ou ingênuas. Na maioria dos casos, o pessoa mal-intencionada explora necessidades emocionais absolutamente normais: amizade, curiosidade, aceitação, atenção ou o desejo de pertencer a um grupo. 

Por isso, conversar sobre segurança online não deve girar só em torno da tecnologia, precisa também abordar relacionamentos. Ajudar a criança a entender o que é uma amizade saudável, o que são limites pessoais e como reconhecer manipulação oferece a ela ferramentas que continuam valiosas, não importa qual aplicativo ou jogo esteja em alta. 

O que os pais podem fazer 

O objetivo não é afastar as crianças da tecnologia. A internet é onde elas aprendem, brincam, criam e mantêm contato com os amigos. A meta é ajudá-las a desenvolver as habilidades e a confiança necessárias para reconhecer situações de risco e saber que sempre podem contar com um adulto de confiança para pedir ajuda. 

Kamila Ryšánková, psicóloga infantil e terapeuta especializada em ludoterapia, explica: “Se existe um conselho que está acima de todos os outros, é este: construa com seu filho uma relação aberta e livre de julgamentos, na qual nenhum assunto seja proibido e ele nunca seja punido por trazer uma notícia ruim. 

As crianças precisam saber que podem conversar com um adulto de confiança sobre mensagens estranhas, situações desconfortáveis ou segredos, mesmo que isso signifique admitir que quebraram uma regra da família, que conversaram às escondidas com alguém ou que baixaram um aplicativo inadequado. 

O medo da punição é um dos principais motivos que levam as crianças a ficar caladas, e quem busca explorá-las costuma testar, de propósito, se elas sabem guardar segredo e se sentem seguras para se abrir com um adulto. 

Isso não exige conversas longas sobre segurança online todos os dias. Pequenos momentos de interesse genuíno pelo que a criança faz online, com frequência, já constroem confiança e mostram que o mundo digital dela importa para você. 

Ferramentas básicas, como controles parentais e regras combinadas para o uso da tecnologia, ajudam, mas não substituem o diálogo. Os pais não precisam ser especialistas em tecnologia nem ter uma hora livre a mais todos os dias e o adulto de confiança nem sempre precisa ser um dos pais. Um avô, uma irmã mais velha, um professor, o psicólogo da escola ou qualquer outro adulto próximo também pode oferecer esse apoio. Proteger crianças do grooming online não pode ser responsabilidade só da família: escolas, programas de prevenção, plataformas digitais e a comunidade em geral também têm um papel importante, especialmente quando a família enfrenta um período de estresse prolongado ou passa por dificuldades.” 

Mantenha o diálogo sempre aberto 

A proteção mais eficaz geralmente começa muito antes de qualquer problema aparecer. Transforme a segurança online em uma conversa contínua, não em uma palestra única. Pergunte ao seu filho quais jogos ele gosta, com quem passa o tempo online ou quais aplicativos novos está usando. Quando a criança se sente ouvida, sem medo de punição ou julgamento, fica muito mais propensa a falar quando algo a incomoda. 

Defina limites em conjunto 

Regras familiares claras ajudam a criança a desenvolver hábitos digitais saudáveis, sem transformar a tecnologia em algo proibido. Combine horários e locais para o uso de telas, incentive pausas regulares e reserve tempo para atividades offline, hobbies e amizades presenciais. Para crianças menores, também ajuda usar os dispositivos em espaços compartilhados da casa, onde os pais conseguem acompanhar naturalmente, sem precisar vigiar cada movimento. 

Ensine sobre privacidade desde cedo 

Ajude seu filho a entender que nem tudo precisa estar online. Informações pessoais como endereço, escola, telefone ou rotina diária nunca devem ser compartilhadas com estranhos. Uma regra simples, fácil de lembrar: se você não gostaria que seus avós vissem aquilo, provavelmente não é uma boa ideia publicar. 

Leia mais sobre exposição excessiva no nosso artigo do Digipais: https://digipais.com.br/novedades/93-por-que-muitas-criancas-estao-viciadas-em-compartilhar-tudo-na-internet 

Escolha plataformas apropriadas para a idade 

Nem todo aplicativo, jogo ou comunidade online foi pensado para crianças. Antes de o seu filho baixar um novo app ou criar uma conta, vale conferir a classificação etária recomendada, as configurações de privacidade e os recursos de comunicação disponíveis. Alguns minutos de pesquisa fazem diferença na hora de decidir juntos. 

Alguns aplicativos de mensagens foram criados pensando em crianças menores, impedindo que estranhos entrem nas conversas e oferecendo aos pais mais controle do que os aplicativos de mensagens tradicionais. 

Estimule o pensamento crítico 

Uma das habilidades digitais mais valiosas é aprender a questionar o que se vê online. Ensine seu filho que nem todo mundo é quem diz ser, que perfis podem ser falsos e que qualquer informação deve ser checada em fontes confiáveis. Essas conversas não só ajudam a proteger as crianças do grooming, como fortalecem suas capacidades de lidar com o mundo digital de forma geral. 

Fique presente sem vigiar 

Demonstrar interesse pela vida online do seu filho funciona melhor do que monitorar cada conversa às escondidas. Peça para ele mostrar os jogos, criadores de conteúdo ou comunidades favoritas, e pergunte com frequência como tem sido a experiência dele online. Estar presente ajuda a perceber mudanças de comportamento e cria espaço para conversar antes que pequenas preocupações se transformem em problemas maiores. 

Dê o exemplo 

As crianças aprendem tanto com o que fazemos quanto com o que dizemos. Mostre, na prática, hábitos digitais saudáveis: proteja sua própria privacidade, use senhas fortes, pense antes de compartilhar informações pessoais e guarde o celular durante momentos em família. Quando veem os adultos usando a tecnologia com consciência, as crianças tendem a repetir esse comportamento. 

Considerações finais 

Conforme a tecnologia avança, as formas que pessoas mal-intencionadas usam para se aproximar e manipular crianças também mudam. Novos aplicativos, ferramentas de IA e comunidades online vão continuar transformando o cenário digital, o que torna impossível se preparar para cada nova plataforma ou tendência que surgir. Em vez de tentar acompanhar cada mudança tecnológica, os pais podem focar em algo muito mais duradouro: ajudar a criança a construir confiança para reconhecer manipulações, questionar comportamentos suspeitos e saber que sempre pode pedir ajuda. Essas são habilidades que continuam relevantes, não importa como será a internet daqui a cinco ou dez anos. 

Perguntas frequentes (FAQ) 

O aliciamento digital está se tornando mais comum?  

Organizações do mundo todo relatam um aumento nos casos de aliciamento e de exploração sexual infantil online. Embora o crescimento na conscientização e nas denúncias também tenha um papel nisso, a presença cada vez maior das crianças na internet e a expansão das comunidades digitais são fatores relevantes. 

Onde o aliciamento digital acontece hoje? 

Pode acontecer em praticamente qualquer plataforma onde crianças conseguem se comunicar com outras pessoas, mas alguns ambientes criam mais oportunidades do que outros. Redes sociais como Instagram, Snapchat e TikTok permitem mensagens privadas, enquanto plataformas como o Discord facilitam a migração de conversas para servidores privados ou mensagens diretas. Jogos multiplayer como Roblox, Fortnite ou Minecraft costumam ter chat de texto ou voz, o que permite construir relações ao longo do tempo. pessoas mal-intencionadas também podem atuar em chats de lives ou comunidades de fãs. É importante lembrar que essas plataformas não são perigosas por natureza, o risco vem de pessoas que usam esses espaços de forma indevida para conquistar confiança e manipular crianças e adolescentes, e é por isso que a presença dos pais e o diálogo aberto continuam tão importantes. 

A IA está tornando o aliciamento digital mais perigoso?  

A IA não é a causa do aliciamento digital, mas pode ajudar pessoas mal-intencionadas a criar identidades falsas mais convincentes, se comunicar de forma mais eficaz ou automatizar partes do processo de manipulação. Conforme essas ferramentas se tornam mais avançadas, a educação digital se torna cada vez mais essencial, tanto para crianças quanto para adultos. 

Os pais devem monitorar todas as conversas online dos filhos?  

Não necessariamente. Cada família é diferente, mas especialistas concordam que diálogo aberto e confiança estão entre os fatores de proteção mais fortes que existem. Crianças que se sentem seguras para conversar com os pais têm muito mais chances de pedir ajuda quando algo parece errado. 

O aliciamento digital pode acontecer dentro de jogos?  

Sim. Jogos multiplayer costumam ter recursos de chat, comunicação por voz ou formas de construir amizades ao longo do tempo. A maioria das interações é completamente positiva, mas os pais devem lembrar que jogos online também são espaços sociais, não apenas entretenimento. 

Qual é a melhor forma de proteger as crianças?  

Não existe um único aplicativo ou controle parental capaz de eliminar todos os riscos. A abordagem mais eficaz combina configurações de privacidade adequadas à idade, hábitos digitais saudáveis, diálogo constante e uma relação em que a criança sabe que pode pedir ajuda sem medo de ser julgada. 

Fonte: SaferKidsOnline.com

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