Curtidas e filtros: Como ajudar crianças a construir confiança em um mundo digital
03 SET 2025
As redes sociais costumam ser responsabilizadas pelo aumento dos níveis de baixa autoestima e depressão entre os jovens. Embora haja verdade nisso, a realidade é mais complexa. Neste artigo, exploramos como o mundo online realmente afeta a confiança das crianças.
A ESET conversou com a psicóloga infantil Jarmila Tomková, que ofereceu insights especializados e conselhos práticos para pais que desejam criar filhos emocionalmente resilientes na era das redes sociais.
É realmente tudo culpa da tecnologia?
A psicóloga infantil Jarmila Tomková argumenta que o ambiente geral e o bem-estar psicológico da criança desempenham um papel muito mais significativo do que muitas vezes supomos. “Os fatores mais importantes são o estado psicológico das crianças, a qualidade de seus relacionamentos, a variedade de seus hobbies e habilidades e a sensação geral de segurança e oportunidades percebidas em sua família e cultura, bem como o ambiente político em que vivem”, diz Tomková. “Por exemplo, pesquisas mostram que pessoas que viveram em regimes autoritários se sentem mais confiantes quando têm o primeiro contato com o mundo online e todas as suas possibilidades. Por meio da tecnologia, podem manter contato com o mundo exterior e ter acesso a diferentes tipos de informação. Eles têm, de repente, a chance de se expressar e compartilhar suas opiniões.”
Como pais, talvez não consigam influenciar fatores mais amplos, como cultura ou política – mas têm um impacto poderoso na vida cotidiana do seu filho.
“Quando as crianças estão felizes em sua vida diária, têm relacionamentos saudáveis tanto com a família quanto com os colegas; sentem satisfação em um ou mais hobbies, reconhecem suas próprias habilidades e se sentem seguras, elas se tornam mais resilientes aos riscos, dentro e fora da internet. Dessa forma, sua confiança será menos vulnerável aos possíveis efeitos negativos da tecnologia”, afirma Tomková.
O mundo online pode se tornar um impulsionador de confiança?
Embora os riscos do mundo online geralmente sejam o centro das atenções, é importante reconhecer que, em alguns casos, os espaços digitais podem apoiar a confiança das crianças, especialmente quando usados de forma ativa e significativa. Se uma criança se expressa interagindo nesses ambientes, criando conexões ou compartilhando seus interesses, essa experiência pode ser empoderadora.
Por exemplo, crianças tímidas ou com ansiedade social podem achar mais fácil fazer amigos online do que presencialmente. Aqueles que têm dificuldade em se destacar nos esportes ou nos estudos podem prosperar como membros valiosos em jogos online. Da mesma forma, crianças que se sentem diferentes de seus colegas – seja pela aparência, personalidade ou origem – muitas vezes encontram comunidades virtuais onde se sentem vistas e compreendidas.
Alguns jovens também acham que é mais fácil se expressar online do que pessoalmente. O espaço digital pode parecer mais seguro, tolerante e fácil de gerenciar – uma espécie de barreira entre o próprio indivíduo e o julgamento social. Isso pode ser libertador quando suas opiniões são bem recebidas, mas doloroso quando são ignoradas ou rejeitadas.
Como explica a psicóloga Jarmila Tomková: “Apenas ao apertar o botão de ‘curtir’, as crianças podem demonstrar concordância ou discordância com algo. Os aplicativos de redes sociais também oferecem um feedback instantâneo e simplificado, o que é muito atraente na adolescência, já que a autoestima dos adolescentes é bastante instável nessa fase. Eles tendem a se comparar muito mais com os outros do que os adultos. Quando publicam algo, o número de curtidas ou comentários indica imediatamente o que os outros pensam”, observa Tomková.
Cuidado com o “Looksmaxxing”
Looksmaxxing é uma tendência crescente nas redes sociais que incentiva meninos adolescentes, a melhorar sua aparência – às vezes de maneiras extremas e inseguras. Embora cuidar da pele ou praticar exercícios possa ser positivo, muitas comunidades online levam os jovens a práticas prejudiciais, como dietas radicais, exercícios excessivos, uso de cosméticos inadequados para a idade (como o retinol) ou até tentativas de alterar fisicamente a estrutura óssea. Esses esforços geralmente buscam alcançar ideais irreais, como maxilares muito marcados ou bochechas fundas, amplamente promovidos na internet. Especialistas alertam que essa pressão pode prejudicar a autoestima e a saúde mental dos adolescentes, aumentando o risco de ansiedade, distúrbios de imagem corporal e comportamentos pouco saudáveis. Como responsável, é fundamental estar atento a essas tendências online, conversar abertamente com seu filho sobre confiança corporal e ajudá-lo a valorizar a saúde e o amor-próprio, em vez de perseguir uma perfeição filtrada.
Para os adolescentes, a validação dos colegas e o status social estão profundamente ligados à forma como se percebem – e as redes sociais intensificam essa dinâmica como nunca antes. Curtidas, comentários e compartilhamentos podem parecer uma pontuação em tempo real do valor de uma pessoa, levando muitos jovens a monitorar sua presença online com urgência ou até compulsão. Esse breve senso de aprovação pode se tornar viciante. E quando esse retorno não vem – quando uma publicação é ignorada ou recebe comentários negativos – a experiência pode ser sentida como algo profundamente pessoal, até mesmo isolador. O que deveria oferecer conexão pode, de repente, se tornar uma fonte de rejeição.
Essa volatilidade emocional é especialmente difícil para os adolescentes, cujo senso de identidade ainda está em formação. Em seus piores efeitos, a exposição à hostilidade online ou ao cyberbullying pode causar danos duradouros à autoimagem de uma criança. Por isso, fortalecer a resiliência offline e oferecer segurança emocional em casa é mais importante do que nunca.
Como posso apoiar meu filho a lidar com o feedback online?
Como responsável, você não pode controlar como a internet vai reagir ao seu filho ou ao conteúdo que ele compartilha, mas pode ajudá-lo a se preparar. Comece conversando abertamente sobre como é o feedback negativo e explore as diferentes formas de responder a críticas, especialmente quando são anônimas ou injustas. É igualmente importante ajudá-los a reconhecer a diferença entre crítica construtiva e assédio online.
“Antes de as crianças entrarem nas redes sociais, elas precisam saber o que podem encontrar ali – incluindo comentários negativos e muitas vezes duros. Primeiro, devemos desencorajar nossos filhos a serem maldosos com outras pessoas – dentro ou fora da internet. Também devemos deixá-los cientes de que, quando alguém é cruel com eles sem motivo, isso não é culpa deles, mas sim reflexo de problemas não resolvidos das pessoas que maltratam os outros”, afirma Tomková.
A psicóloga também destaca a importância de dar às crianças ferramentas práticas para lidar com essas situações: “As crianças precisam saber que sempre podem recorrer aos pais ou a colegas de confiança, que podem ajudá-las a enfrentar os problemas. Se o feedback que recebem online for muito pesado, devem fazer uma captura de tela e mostrar às pessoas em quem confiam. Os pais também devem ensinar seus filhos a denunciar comentários e publicações inapropriadas. Quando as crianças sabem como fazer isso, sentem-se mais resilientes.”
Além de proteger as crianças de experiências negativas online, é igualmente importante ajudá-las a colocar o feedback positivo em perspectiva. A enxurrada de curtidas e elogios pode ser empolgante, até viciante, especialmente para adolescentes cuja autoestima ainda está em formação. É por isso que equilibrar os elogios recebidos online com o incentivo no mundo real é tão importante.
Certifique-se de que seu filho se sinta valorizado não apenas por suas conquistas, mas também por sua curiosidade, esforço e gentileza no dia a dia. Mesmo pequenos gestos, como reconhecer a forma como eles lidaram com um momento difícil, ajudam a construir uma autoestima duradoura. Encoraje conversas sobre como o feedback online os faz se sentir e ajude-os a refletir sobre a diferença entre respostas instantâneas e crescimento significativo a longo prazo. Quando a confiança deles está enraizada fora da internet, é menos provável que se tornem emocionalmente dependentes de cada curtida ou emoji.
Como você pode apoiar a confiança do seu filho?
Inspire-se com as dicas da psicóloga infantil Jarmila Tomková
- Encontre tempo para estar com seus filhos. Mesmo que, às vezes, você fique ocupado, é essencial passar momentos de qualidade com seus filhos. Dedique tempo para dar atenção total, conversar e fortalecer a relação entre pais e filhos. Isso fará com que as crianças se sintam seguras, mais confiantes e menos propensas a usar a tecnologia de forma compulsiva.
- Dê responsabilidades às crianças. Permita que cuidem de uma planta ou de um animal de estimação, que participem das tarefas da casa ou que acompanhem os irmãos mais novos até a escola. Ao confiar-lhes pequenas tarefas e valorizar seus esforços, você ajuda a desenvolver tanto a independência quanto a confiança.
- Incentive as atividades das crianças. Deixe que experimentem diferentes tipos de hobbies e descubram o que gostam de fazer. Apoie não apenas os sucessos, mas também o esforço que colocam em cada atividade. Você pode ainda estimular a competitividade de forma saudável, por exemplo, por meio de jogos – mas sem comparar as habilidades (ou a falta delas) do seu filho com as de outras crianças, incluindo irmãos.
- Não se menospreze. As crianças tendem a observar as figuras de autoridade em suas vidas e a reproduzir os comportamentos que veem. Se você é seu pior crítico, seus filhos podem adotar a mesma postura ao falar ou pensar sobre si mesmos.
- Ensine que o sucesso exige determinação. Todos já vivemos isso: a criança começa um hobby e se diverte, mas em algum momento enfrenta uma crise e quer desistir. É importante apoiá-la, explicando que, às vezes, continuar tentando vale a pena. Quando conseguem superar esses momentos, as crianças podem se sentir ainda mais orgulhosas de si mesmas e de suas conquistas.
Então, o mundo online é um lugar feliz?
Digamos que seu filho tenha sucesso online – suas postagens recebem curtidas, elogios e atenção positiva. Isso automaticamente aumentará sua confiança? Segundo a psicóloga Jarmila Tomková, não é tão simples assim:
“Isso depende de como as crianças usam a tecnologia. Por exemplo, não é psicologicamente saudável para uma criança passar mais de uma hora por dia nas redes sociais. Se esse tempo for ultrapassado, não importa o tipo de feedback recebido, a confiança tende a diminuir. O uso excessivo da internet e das redes sociais está associado ao aumento da depressão, da solidão e à redução da autoestima.”
É aqui que o papel dos pais se torna novamente fundamental. Converse com seu filho sobre limites saudáveis — não apenas em relação ao tempo de tela, mas também às expectativas emocionais.
Mesmo em seus cantos mais positivos, as redes sociais costumam mostrar uma versão filtrada da realidade, em que a vida de todos parece feliz, bem-sucedida e perfeita. Isso pode fazer com que as crianças sintam que receberam menos da vida. Explique que é normal postar momentos marcantes, como festas de aniversário ou vitórias em jogos de futebol, mas que também é normal não ver as situações em que alguém está arrumando o quarto, se sentindo ansioso ou enfrentando dificuldades na escola. Esses momentos invisíveis fazem parte da vida de todos, por mais perfeita que pareça online.
Por fim, uma das mensagens mais fortalecedoras que você pode transmitir ao seu filho é que ele não precisa ser apenas consumidor de conteúdo — pode ser criador também. Seja uma postagem reflexiva, um meme engraçado ou um projeto fotográfico, ajudar a criança a se expressar online de forma criativa e positiva reforça sua autonomia e confiança.
“Devemos explicar às crianças que, quando publicam algo na internet, elas estão influenciando as pessoas que as seguem. Ao colocá-las nessa posição ativa, elas podem se sentir responsáveis — e, como resultado, também mais confiantes. Além disso, se criarem um espaço positivo para outras pessoas online, podem fortalecer de maneira construtiva a confiança de seus colegas”, conclui Jarmila Tomková.
Fonte: SakerKidsOnline.com by ESET






